MRZ

A faixa de caracteres no rodapé de um passaporte ou uma carteira de identidade, escrita para ser lida por uma máquina antes de uma pessoa. O que ela codifica, em quais formatos aparece e por que seu dígito verificador é o primeiro a denunciar uma alteração.

Em resumo

A MRZ (machine readable zone, zona de leitura mecânica) é a faixa de duas ou três linhas de caracteres monoespaçados que aparece no rodapé de um passaporte, uma carteira de identidade ou uma autorização de residência. Ela repete, em um formato fixo e na mesma ordem em todos os países, os dados que o documento já mostra impressos acima.

Sua forma não é estética: a tipografia, o conjunto de caracteres e a posição de cada campo são definidos pela norma ICAO 9303, que padroniza os documentos de viagem de leitura mecânica. Por isso uma mesma rotina pode ler um passaporte emitido em qualquer país sem saber de antemão qual é.

A faixa também se autoverifica. Vários campos trazem um dígito verificador calculado sobre seus próprios caracteres, e isso permite detectar na hora uma leitura defeituosa ou uma modificação grosseira do dado.

Quais dados ela codifica

A MRZ não é texto livre. Cada posição corresponde a um campo, e os campos são sempre os mesmos.

  • Tipo de documento — uma ou duas letras que distinguem um passaporte de uma carteira de identidade ou de uma autorização de residência.
  • Estado emissor — o país que emitiu o documento, em um código de três letras.
  • Sobrenomes e nomes — em uma única cadeia, com um sinal de preenchimento duplo separando sobrenomes de nomes.
  • Número do documento — o identificador atribuído pelo emissor.
  • Nacionalidade — também em código de três letras, e nem sempre coincide com o estado emissor.
  • Data de nascimento e data de validade — em formato de seis dígitos, ano, mês e dia.
  • Sexo — uma letra, com a opção de deixá-lo sem especificar.
  • Dados opcionais — um espaço que cada país usa a seu critério, geralmente para um número pessoal ou de registro.
  • Dígitos verificadores — um por campo verificado, mais um composto que cobre vários campos ao mesmo tempo.

Dois detalhes explicam a maioria das discrepâncias que uma equipe de operações vê. O primeiro: o conjunto de caracteres admite apenas letras sem acento, dígitos e o sinal de preenchimento <. Nomes com acentos, com til, com ç ou com caracteres não latinos são transliterados, então a cadeia da MRZ pode não coincidir caractere a caractere com o que está impresso acima no mesmo documento. Isso é correto, não é um erro de leitura.

O segundo: quando um nome não cabe no espaço disponível, ele é truncado. Um sobrenome longo pode aparecer incompleto na faixa e completo na frente.

Os três formatos

A norma define três formatos, e o nome descreve o tamanho do documento inteiro, não apenas o da faixa.

  • TD1 — três linhas de 30 caracteres. É o formato de cartão: carteiras de identidade, autorizações de residência, credenciais do tamanho de um cartão bancário.
  • TD2 — duas linhas de 36 caracteres. Formato intermediário, menos frequente na região.
  • TD3 — duas linhas de 44 caracteres. É o formato dos passaportes.

Os vistos de leitura mecânica usam variantes próprias, com sua própria estrutura.

Saber em qual formato está a faixa importa por um motivo prático: define quantas linhas é preciso capturar e onde termina cada campo. Uma captura que corta a terceira linha de um TD1 não retorna um dado incompleto, retorna um dado mal alinhado.

Por que o dígito verificador vale tanto

O cálculo é simples, e essa é toda a sua graça. Sobre os caracteres do campo aplica-se uma ponderação que se repete em ciclo, 7, 3, 1. Cada caractere contribui com um valor: os dígitos, o seu próprio; as letras, um valor de 10 para o A até 35 para o Z; o sinal de preenchimento, zero. Os valores são multiplicados pelo seu peso, somados, e toma-se o resto da divisão por dez. Esse resto é o dígito verificador.

Há também um dígito composto, calculado sobre vários campos juntos em vez de sobre um só, que vai ao final da linha que codifica os dados pessoais: a segunda linha nos três formatos. No TD1 a terceira linha traz apenas os nomes.

Isso tem duas consequências concretas.

A primeira é de qualidade de leitura. Se o sistema confunde um zero com a letra O, o dígito deixa de fechar e o erro aparece na hora, sem necessidade de contrastar com nenhuma outra fonte. É uma verificação gratuita que roda sobre o próprio documento.

A segunda é de integridade. Quem modifica uma data de nascimento na faixa precisa recalcular o dígito desse campo e também o composto. Uma alteração feita sem esse cuidado é detectada sem mais ferramenta do que a aritmética.

Convém dizer até onde isso vai. O dígito verificador comprova consistência, não autenticidade. A regra é pública e qualquer um pode aplicá-la, então uma falsificação bem-feita vai ter os dígitos corretos. O que a faixa demonstra é que seus dados são internamente coerentes. Que o documento é genuíno se estabelece por outra via: os elementos de segurança do suporte, a assinatura do chip quando o documento o possui, e o cross-check entre frente e verso.

MRZ, código de barras e chip

Um mesmo documento pode trazer seus dados em três representações diferentes, e as três oferecem garantias diferentes.

  • MRZ — texto impresso, legível com qualquer câmera e sem decodificador. Se autoverifica com seus dígitos. Não prova autenticidade.
  • [PDF417](/glosario/pdf417) — o código de barras bidimensional que muitas carteiras de identidade e licenças trazem no verso. Admite mais dados do que a faixa e tolera dano parcial do impresso, mas precisa ser decodificado.
  • [Chip NFC](/glosario/chip-nfc) — os dados vão assinados pela autoridade emissora, e essa assinatura pode ser verificada. É a única das três que responde pela autenticidade dos dados e não apenas pelo seu conteúdo, porque vão assinados pela autoridade emissora.

Entre a faixa e o chip há também uma relação que costuma passar despercebida: nos documentos com chip, o acesso à informação armazenada exige uma chave derivada de dados impressos no próprio documento, e no esquema mais difundido esses dados vêm da MRZ. A faixa não é uma cópia redundante. É também a chave de entrada ao chip, e é por isso que um fluxo que quer ler o chip precisa primeiro ler bem a faixa.

Perguntas frequentes

MRZ são as siglas de machine readable zone, zona de leitura mecânica. É a faixa de duas ou três linhas de caracteres monoespaçados localizada no rodapé de um passaporte, uma carteira de identidade ou uma autorização de residência, que repete em formato fixo os dados que o documento mostra impressos. Sua estrutura, sua tipografia e a ordem de seus campos são definidos pela norma ICAO 9303, o que permite que uma mesma rotina leia documentos de países diferentes.

Não. A faixa é obrigatória nos documentos de viagem de leitura mecânica, começando pelo passaporte, e muitos países adotaram o mesmo formato para suas carteiras de identidade e autorizações de residência. Mas convivem versões anteriores de documentos nacionais que nunca a trouxeram e continuam vigentes até seu vencimento. Nesses casos, o dado estruturado costuma estar no código de barras do verso em vez de em uma faixa.

Pode-se confiar que são consistentes, o que não é o mesmo que confiar que são verdadeiros. Os dígitos verificadores comprovam que os campos não foram lidos errado nem alterados de forma descuidada, e essa verificação roda sobre o próprio documento sem consultar nenhuma fonte externa. A autenticidade é uma pergunta diferente e se responde com os elementos de segurança do suporte, com a assinatura criptográfica do chip quando o documento a incorpora, e contrastando a faixa com o que está impresso do outro lado.

Porque a faixa admite um conjunto de caracteres reduzido, sem acentos nem caracteres não latinos, e porque trunca o que não cabe no espaço atribuído. Um sobrenome com acento aparece sem ele, e um nome longo pode aparecer cortado. É o comportamento esperado da norma, não um defeito de leitura, e um processo que o trate como discrepância vai rejeitar documentos legítimos.

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